
Isack Hadjar lidera o shakedown secreto em Barcelona: começa oficialmente a era da F1 2026
por Simone Scanu
A cortina se abriu para a transformadora temporada 2026 da Fórmula 1 — embora não exatamente da forma que fãs e observadores casuais poderiam ter imaginado. Em vez do habitual alvoroço e dos feeds de cronometragem ao vivo que acompanham os testes de pré-temporada, o órgão regulador do esporte orquestrou uma operação de segurança sem precedentes no Circuit de Catalunya, em Barcelona, efetivamente fechando o paddock e excluindo totalmente mídia e espectadores do que deveria ter sido uma janela de testes aberta.
A lógica por trás dessa mentalidade de fortaleza é simples: o regulamento de 2026 representa a mais ampla redefinição técnica dos últimos tempos. Novas unidades de potência — algumas desenvolvidas por fabricantes, outras criações sob medida como a parceria da Red Bull com a Ford — chegam ao lado de pacotes aerodinâmicos profundamente revisados. As equipes precisam de tempo sem interferências para entender seus carros, diagnosticar problemas iniciais e acumular quilometragem crucial sem a distração do escrutínio externo. A Fórmula 1 prometeu compartilhar fotos e vídeos limitados, enquanto as equipes mantêm permissão para filmagens restritas no pit lane e na pista, mas a transparência geral foi deliberadamente reduzida. Informações de cronometragem ao vivo que vazaram brevemente nas primeiras horas foram rapidamente cortadas por oficiais do circuito, reforçando o compromisso do esporte em manter a segurança operacional.
Ainda assim, apesar dessas precauções, o primeiro dia de testes revelou hierarquias iniciais claras — e alguns desafios técnicos reveladores — à medida que sete equipes foram à pista para iniciar suas odisseias rumo a 2026.
Uma exibição dominante da Red Bull e do novo motor com a Ford
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A atuação de Isack Hadjar, que virou manchete, justificou imediatamente o hype em torno da nova unidade de potência sob medida da Red Bull, desenvolvida em colaboração com a Ford. O francês, em sua primeira saída com a equipe de Milton Keynes, marcou a melhor volta em 1:18.159, ficando mais de meio segundo à frente do restante do pelotão, apesar de trabalhar em condições úmidas e frias que, como de costume, reduzem o desempenho em todo o grid.
O fato de Hadjar — e não Max Verstappen — assumir as tarefas do dia de abertura foi uma surpresa, embora a decisão fizesse sentido do ponto de vista operacional. A rodada de instalação da Red Bull priorizou acumular quilometragem e verificar sistemas, mais do que buscar tempos de destaque, posicionando a equipe para maximizar sua alocação de três dias em Barcelona antes de seguir para os testes mais extensos no Bahrein, programados para fevereiro. A contribuição de 107 voltas de Hadjar, combinada com um acerto visivelmente agressivo com o pneu macio, sinalizou uma equipe ansiosa para estabelecer rapidamente suas bases técnicas.

A importância mais ampla da vantagem inicial da Red Bull não pode ser subestimada. Esta é a primeira vez na história moderna da equipe que ela projetou e construiu sua própria unidade de potência do zero. Parcerias anteriores — com Renault, TAG Heuer-Renault ou Honda — envolviam fabricantes externos, tornando 2026 um marco para a autonomia técnica. Os dados de alocação de pneus da Pirelli, que mostraram a Red Bull favorecendo de forma esmagadora o composto macio C3 nos testes, também sugeriram uma equipe focada em voltas de referência com pneus macios, em vez de simular diferentes cenários de ritmo de corrida.
A W17 da Mercedes impressiona apesar do revezamento

Enquanto a Red Bull registrou os tempos mais rápidos do dia, a Mercedes apareceu como a operadora mais consistente e metódica da sessão, com George Russell terminando em segundo, apenas 0,537s atrás da referência de Hadjar. A abordagem da equipe de Brackley demonstrou profissionalismo calculado: Kimi Antonelli assumiu a parte da manhã, representando uma ameaça competitiva real nas primeiras horas, antes de Russell pegar o volante à tarde.
A compostura da W17 chamou atenção. A Mercedes tem um histórico de excelência em ciclos regulatórios complexos guiados por unidades de potência, tendo dominado a era híbrida V6 desde sua introdução em 2014. O consenso pré-teste no paddock colocava a Mercedes como favorita no novo cenário de motores de 2026, e as primeiras voltas não fizeram nada para diminuir essa percepção. Fontes confirmaram a competitividade imediata da Mercedes, com observadores presentes à beira da pista destacando a boa impressão visual e a coesão técnica da W17.
O fato de o esforço de Russell à tarde ter sido marginalmente mais rápido do que a sessão matinal de Antonelli evidencia a dificuldade inerente de extrair dados de desempenho realmente significativos no primeiro dia. Evolução de pista, familiaridade do piloto, temperaturas de freio e cargas de combustível conspiram para tornar comparações diretas de tempo de volta, no mínimo, preliminares. Ainda assim, a soma de voltas da Mercedes com seus dois pilotos — 93 voltas ao fim do dia — demonstrou eficiência operacional e confiabilidade de sistemas, marcadores fundamentais para um novo paradigma técnico.
Colapinto coloca a Alpine no top 3; primeiras bandeiras vermelhas aparecem

O terceiro lugar de Franco Colapinto pela Alpine (1:21.189, ou +2,030s) trouxe um incentivo inicial para a equipe de Enstone, embora o dia do argentino tenha sido interrompido por complicações técnicas. A Alpine provocou a primeira bandeira vermelha do dia quando problemas forçaram Colapinto a parar na pista, interrompendo brevemente a sessão e gerando análise técnica entre os oficiais do circuito.
Ainda assim, a contribuição geral de Colapinto — 60 voltas e um tempo competitivo que superou expectativas para uma equipe em transição para uma nova unidade de potência Mercedes — sugeriu que a Alpine tinha preparação suficiente. A equipe encara um cenário desafiador em 2026, especialmente com a chegada de novos parceiros fabricantes e a complexidade do regulamento, mas o acúmulo inicial de voltas indicou estabilidade razoável dos sistemas.
O desafio técnico da Audi e a estreia difícil da Cadillac
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Os acontecimentos mais preocupantes do dia envolveram os dois protagonistas mais novos no universo das unidades de potência. A Audi, após concluir a aquisição da Sauber e encarar o desafio ambicioso de integrar novas estruturas de propriedade enquanto desenvolve uma unidade de potência sob medida, enfrentou dificuldades técnicas iniciais quando o carro de Gabriel Bortoleto precisou ser desligado na pista. Jonathan Wheatley, chefe de equipe, explicou depois a decisão de analisar o problema com método em vez de retomar a atividade: "Nós identificamos, decidimos desligar o carro na pista. Temos bastante teste este ano e queríamos realmente entender o problema, então estamos analisando isso com cuidado."
Essa abordagem ponderada, embora sensata no longo prazo, deixou a Audi com apenas 27 voltas — bem abaixo do volume das equipes rivais e levantando dúvidas sobre a prontidão do time para as primeiras etapas da temporada. O 1:25.296 de Gabriel Bortoleto colocou a Audi em nono no quadro do dia, mais de sete segundos atrás da referência de Hadjar.
A estreia da Cadillac na Fórmula 1 foi ainda mais problemática. A entrada da equipe americana no esporte — competindo como a 11ª franquia do grid — chegou com grande expectativa e ambição, mas a execução no primeiro dia ficou aquém. Valtteri Bottas completou 33 voltas com uma pintura de testes toda preta, registrando 1:24.651, mas Sergio Perez fez apenas 11 voltas antes de problemas técnicos encerrarem sua atividade. Bottas reconheceu depois os desafios de desenvolvimento da equipe: "A prioridade agora é dar mais voltas a cada dia; acho que fiz um pouco mais de 30 voltas hoje, algumas só de instalação e coisas assim, mas precisamos de rodagem de verdade, colocar quilometragem, e garantir um pacote confiável para a primeira corrida."
Ocon, da Haas, vence a guerra das voltas

As 154 voltas de Esteban Ocon com a Haas foram o maior feito de quilometragem do dia, superando todos os concorrentes apesar de ele ter terminado em quinto na tabela de tempos, com 1:24.520. Essa desconexão entre desempenho e quilometragem reforça a realidade dos testes iniciais: o número bruto de voltas frequentemente não se traduz em posição competitiva, especialmente quando as equipes priorizam validação de sistemas e simulações de baixa carga de combustível em vez de voltas representativas de classificação.
A Haas repetiu a abordagem do teste de abertura do Bahrein no ano passado, quando a equipe também acumulou a maior quilometragem, com 160 voltas. Para comparação, o circuito de Barcelona é notavelmente mais curto do que o traçado do Bahrein, tornando as 154 voltas de Ocon um resultado respeitável, ainda que ligeiramente conservador. A postura metódica da equipe — insistindo em voltas de instalação, checagens de sistemas e otimizações de balanço de freio — sugeriu preparação e estrutura, e não domínio de performance.
A disparidade de voltas e ausências notáveis

Além das hierarquias competitivas e das falhas técnicas, a realidade estatística mais marcante do primeiro dia foi a enorme disparidade de quilometragem acumulada no grid. As 154 voltas de Ocon eclipsaram as 27 de Bortoleto, refletindo tanto a diferença de maturidade entre equipes estabelecidas e novatas quanto a natureza direta dos problemas técnicos enfrentados por Audi e Cadillac.
Três grandes equipes ficaram notavelmente ausentes. Ferrari e McLaren, ambas confirmadas para iniciar seus programas de testes no segundo dia, optaram por ficar fora da atividade de segunda-feira, preservando seus três dias alocados para mais tarde na semana. A Williams, por sua vez, se retirou completamente do teste de Barcelona, levantando dúvidas sobre o cronograma de preparação da equipe e sua prontidão para 2026. A Aston Martin também enfrenta um cronograma de testes abreviado, supostamente planejando começar a rodar apenas na quinta e na sexta — abrindo mão de um dos três dias alocados e deixando ainda mais nebuloso o status de desenvolvimento do time para a campanha.
Essas ausências, sejam estratégicas ou circunstanciais, criaram um cenário competitivo peculiar: os tempos mais rápidos do dia vêm de equipes que rodaram nas primeiras semanas do calendário, o que significa que as credenciais de tempo de volta permanecem substancialmente não testadas contra o maquinário do grid completo.
Olhando para a frente

A abertura da temporada 2026 em Barcelona ofereceu indicadores iniciais de direção, ao mesmo tempo em que manteve a grande maioria da inteligência competitiva real atrás de portões fechados e cordões de segurança. O ritmo inicial da Red Bull e a consistência demonstrada pela Mercedes sugerem que a sabedoria convencional pré-teste — de que a Mercedes dominaria sob o novo paradigma de unidades de potência, enquanto a Red Bull enfrentaria uma transição incerta com a parceria com a Ford — precisa de uma recalibração significativa.
Dois testes adicionais de três dias no Bahrein, programados para fevereiro, fornecerão dados muito mais abrangentes, especialmente quando Ferrari, McLaren e o grid completo tiverem exposição unificada e referência de desempenho. Até lá, a tabela do primeiro dia em Barcelona serve como ponto de referência preliminar, e não como um roteiro preditivo — algo reforçado pelas condições frias e úmidas, que reduziram o desempenho absoluto, e pela ausência de rodadas representativas de simulação de corrida.
A temporada 2026 da Fórmula 1 começou oficialmente, envolta em sigilo e carregada de intriga técnica. O que surgir dos testes no Bahrein pode ser substancialmente diferente dessas primeiras impressões de Barcelona — como historicamente costuma acontecer. Por ora, a manchete de Hadjar e a vantagem inicial da Red Bull fornecem o capítulo de abertura do esporte no que promete ser uma campanha transformadora.

Simone Scanu
Ele é um engenheiro de software apaixonado pela Fórmula 1 e pelo automobilismo. Ele cofundou a Formula Live Pulse para tornar a telemetria ao vivo e as informações sobre as corridas acessíveis, visuais e fáceis de acompanhar.

