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Carlos Sainz apelou ao organismo que rege a Fórmula 1 para que passe a dar prioridade ao feedback dos pilotos, em vez de se basear apenas na tranquilidade das equipas, depois de o violento acidente de Ollie Bearman no Grande Prémio do Japão ter reacendido os receios em torno das corridas proporcionadas pelos regulamentos de 2026.
Bearman foi projetado contra as barreiras a alta velocidade depois de ser surpreendido por uma enorme diferença de velocidade ao aproximar-se do Alpine de Franco Colapinto na curva Spoon. O impacto atingiu 50G, deixando o britânico com contusões no joelho.
Para Sainz, diretor da Associação de Pilotos de Grande Prémio (GPDA), o incidente não foi um choque isolado — foi precisamente o cenário para o qual os pilotos têm vindo a alertar repetidamente.
Falando após a corrida, ainda antes de rever as imagens completas do incidente, Sainz foi direto na sua avaliação.
“Esse é o problema quando se ouve apenas as equipas, que podem achar que as corridas estão boas porque talvez seja divertido ver na televisão,” afirmou.
Dentro do cockpit, argumenta, a realidade é bem diferente.
“Mas do ponto de vista do piloto, quando estás a competir roda com roda e percebes que pode haver uma diferença de 50 km/h, isso não é correr.”
Sainz sublinhou que disparidades desta magnitude são praticamente inexistentes noutras categorias e acarretam riscos evidentes.
“Não há nenhuma categoria no mundo onde existam diferenças de velocidade deste tipo, porque é aí que podem acontecer grandes acidentes — apanha-te de surpresa, defendes tarde, e acaba por te atingir a ti ou ao carro de trás.”
O espanhol pediu à FIA uma resposta firme.
“Espero sinceramente que nos ouçam e que se foquem no feedback que lhes demos, em vez de ouvirem apenas as equipas. [Espero] que apresentem um plano para Miami que melhore a situação e também um plano a médio prazo para continuar a aperfeiçoar estes regulamentos.”
Mesmo que não seja possível implementar uma solução completa de imediato, Sainz quer ver progressos graduais.
“Mesmo que não consigam melhorar tudo para Miami, deem mais um bom passo em Miami e depois um grande passo, seja no próximo ano ou mais tarde na época.”

Sainz também questionou porque razão a Fórmula 1 parece mais concentrada em corrigir o comportamento na qualificação do que em enfrentar os problemas de fundo das corridas.
“Foi por isso que fiquei tão surpreendido quando disseram: ‘não, vamos resolver a qualificação e deixar as corridas como estão porque são emocionantes’,” afirmou.
“Nós, pilotos, temos sido extremamente claros: o problema não é só a qualificação, também é a corrida.”
Alertou ainda que o Grande Prémio do Japão poderia ter tido um desfecho bem diferente em circuitos rodeados de muros.
“Aqui tivemos sorte porque havia uma escapatória. Agora imaginem ir a Baku, Singapura ou Las Vegas e ter este tipo de diferenças de velocidade e acidentes junto aos muros.”
Recordando o seu próprio acidente de 46G na Rússia, em 2015, Sainz destacou a violência do impacto de Bearman.
“Ouvi dizer que foram 50G, mais do que o meu acidente na Rússia em 2015, que foi de 46G. Só de pensar que tipo de acidente poderia acontecer em Las Vegas, Baku, etc…”
A sua conclusão foi inequívoca.
“Espero que sirva de exemplo… para as equipas e para quem dizia que as corridas estavam bem, porque não estão.”

Max Verstappen, informado do incidente após a corrida, apontou as diferenças extremas de desempenho criadas pelos modos de gestão de energia.
“É isso que acontece com estas situações: um piloto fica praticamente sem potência e o outro ativa o modo máximo, e pode haver uma diferença de 50, 60 km/h. É mesmo muito grande.”
Advertiu que a combinação de alta velocidade com desaceleração súbita pode ser enganadora e perigosa.
“Pode ser muito perigoso. Parece que o carro se move em travagem ou em geral, mas também acontece quando há uma desaceleração rápida. Pode dar origem a um grande acidente.”
Sobre o panorama regulamentar mais amplo, Verstappen descreveu a situação atual como excessivamente complexa.
“Na qualificação, para seres mais rápido, basicamente tens de ir mais devagar, menos acelerador e tudo mais. Não é assim que deveria ser.”
Acrescentou: “É tudo muito confuso, e não devia ser assim. É tudo extremamente sensível.”
O atual campeão do mundo, Lando Norris, reconheceu que houve vários momentos de risco durante o Grande Prémio do Japão.
“Houve alguns, até com o Lewis [Hamilton] no final. Mas já disse tudo o que tinha a dizer e não preciso acrescentar mais nada. Tal como os outros pilotos. Não vale a pena continuar a falar do assunto.”
As preocupações não se limitam aos pilotos. O chefe de equipa da McLaren, Andrea Stella, revelou que o problema já tinha sido identificado nos testes.
“Não é surpresa. Já o tínhamos dito nos testes. Está na agenda da FIA no que diz respeito aos aspetos destes regulamentos de 2026 que devem ser melhorados.”
Sublinhou a responsabilidade de agir de forma preventiva.
“Não queremos esperar que algo aconteça para então tomar medidas.”
Fernando Alonso acredita que a qualificação pode representar um risco ainda maior do que a corrida.
“Para mim, a parte mais perigosa é a qualificação,” afirmou, referindo as diferenças de velocidade entre voltas de recarga e voltas rápidas.
“Em pistas como Baku, Singapura, Mónaco, os circuitos citadinos, não há margem de manobra nem zonas de escape. Vai ser complicado.”

A FIA confirmou que estão agendadas reuniões em abril para avaliar o funcionamento dos novos regulamentos e determinar se são necessários ajustes.
Para Sainz e para a GPDA, porém, a mensagem é clara: o Grande Prémio do Japão deve servir de aviso. As diferenças de velocidade observadas em Suzuka não são riscos teóricos — já estão a provocar impactos de 50G. A questão agora é saber com que rapidez a Fórmula 1 irá reagir.

Ele é um engenheiro de software apaixonado pela Fórmula 1 e pelo automobilismo. Ele cofundou a Formula Live Pulse para tornar a telemetria ao vivo e as informações sobre as corridas acessíveis, visuais e fáceis de acompanhar.
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