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Análise

Como a Estratégia nas Boxes Pode Ganhar ou Perder uma Corrida do WEC

Como funcionam as estratégias de paragens nas boxes no WEC? Descubra como a gestão de combustível, as trocas de pilotos, os pneus e o timing podem decidir as corridas de resistência.

Como a Estratégia nas Boxes Pode Ganhar ou Perder uma Corrida do WEC
© Getty Images

Na Fórmula 1, as paragens nas boxes costumam terminar em poucos segundos. Um conjunto novo de pneus, uma saída rápida e, com sorte, uma posição ganha. No Campeonato Mundial de Resistência (WEC), porém, as coisas são um pouco mais complicadas. As paragens nas boxes não servem apenas para mudar pneus. Servem para gerir combustível, energia, pilotos e, talvez o mais importante, tempo.

Ao longo de uma corrida de seis horas, ou mesmo nas 24 Horas de Le Mans, uma paragem bem calculada pode permitir a uma equipa passar os adversários sem nunca os ultrapassar em pista. E, por vezes, o carro mais rápido não é necessariamente o que tem mais hipóteses de vencer.

Afinal, como é que as equipas usam as paragens nas boxes a seu favor?

As Paragens nas Boxes São Obrigatórias no WEC?

Ao contrário da Fórmula 1, onde os pilotos têm normalmente de usar pelo menos dois compostos diferentes de pneus secos numa corrida em piso seco, o WEC não tem um número fixo de paragens obrigatórias nem uma janela de paragem padrão.

Em vez disso, parar é uma necessidade. Os carros simplesmente não conseguem completar seis, oito ou 24 horas de corrida com um único depósito de combustível, e os pneus têm de ser geridos ao longo de toda a prova.

Isso dá às equipas bastante liberdade para decidir quando parar, quanto combustível abastecer, se mudam ou não os pneus e quando trocam de piloto. Existem regras rigorosas sobre a forma como as paragens são feitas, incluindo o desligar do motor, os limites de mecânicos e os procedimentos de reabastecimento, mas a estratégia em si cabe, em grande medida, às equipas.

E é aqui que as coisas ficam interessantes.

Gestão de Combustível: Porque Mais uma Volta Pode Fazer a Diferença

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© Getty Images

Um dos fatores mais determinantes na estratégia de boxes do WEC é o consumo de combustível. Na categoria Hypercar, as equipas têm também de gerir uma coisa chamada depósito de energia virtual.

Em termos simples, cada Hypercar recebe uma quantidade máxima de energia que pode utilizar durante um stint, medida em megajoules (MJ). Esta quota é definida através das regras de Balance of Performance (BoP), que pretendem manter os diferentes fabricantes competitivos.

O sistema mede a energia fornecida pelo grupo motopropulsor, incluindo a contribuição dos sistemas híbridos, quando existem. Assim que essa quota de energia é gasta, o carro tem de a repor durante uma paragem nas boxes.

E aqui está o senão: ter combustível físico no depósito não significa necessariamente que um carro possa continuar a correr indefinidamente. A equipa tem de gerir, em simultâneo, o seu abastecimento real de combustível e o consumo de energia permitido.

Os pilotos podem prolongar os stints levantando o pé do acelerador mais cedo antes das curvas, a chamada lift-and-coast, ou ajustando a intensidade com que usam a potência do carro. Estas pequenas poupanças podem somar-se ao longo de várias horas.

Porquê que isto é importante? Imagine dois carros com tempos de volta semelhantes. Um consegue dar uma volta extra antes de parar, enquanto o outro tem de entrar nas boxes mais cedo. Ao longo de uma corrida longa, essa flexibilidade pode permitir à primeira equipa evitar uma paragem adicional, encurtar a última paragem para reabastecer ou aproveitar um período de Safety Car.

São vantagens que podem mudar a corrida, mesmo que nenhum dos carros seja visivelmente mais rápido em pista.

Undercut e Overcut: Ganhar Posições Sem Ultrapassar

Se acompanha a Fórmula 1, provavelmente já conhece o undercut e o overcut. As duas estratégias existem também no WEC, mas as cargas de combustível, o tráfego e a gestão dos pneus tornam os cálculos mais complexos.

Um undercut acontece quando uma equipa para mais cedo do que um adversário, na esperança de ganhar tempo suficiente com pneus novos ou em ar mais limpo para sair à frente quando o concorrente parar.

O overcut funciona no sentido oposto. Uma equipa fica mais tempo em pista, esperando que os seus pneus atuais e a sua posição permitam andar mais depressa do que um rival que já parou.

No WEC, no entanto, os pneus novos nem sempre fazem parte da equação. As equipas podem decidir manter o mesmo conjunto através de várias paragens para combustível, sobretudo se os pneus estiverem a comportar-se bem. Isso significa que a vantagem pode vir do timing da paragem, da estratégia de combustível ou de evitar tráfego lento, e não apenas do desempenho dos pneus.

E, como os Hypercar e os LMGT3 partilham o circuito, o tráfego é outro fator a considerar. Um piloto preso atrás de carros mais lentos pode perder tempo precioso, enquanto um adversário com ar limpo pode tirar partido da sua estratégia.

O importante a lembrar é que o carro que lidera em pista não é necessariamente o carro que lidera a corrida. Até os diferentes ciclos de paragens se concretizarem, a ordem pode ser enganadora.

Porque é que as Equipas Não Mudam Pneus em Todas as Paragens

Outra grande diferença em relação à F1 é que as equipas do WEC nem sempre montam pneus novos em cada paragem.

Os pneus de resistência foram concebidos para durar bem mais tempo, e os pilotos podem completar vários stints de combustível com o mesmo conjunto. Isto é conhecido como fazer double-stint ou triple-stint com os pneus.

Há uma vantagem tática nisso. Segundo os procedimentos do WEC para 2026, o reabastecimento e a troca de pneus são operações separadas, o que significa que as equipas podem poupar um tempo precioso parado ao saltar a troca de pneus.

Mas há um compromisso. À medida que os pneus se desgastam, o rendimento pode degradar-se, sobretudo em circuitos que são exigentes para a borracha. Por isso, as equipas têm de calcular se o tempo poupado nas boxes compensa a eventual perda de ritmo em pista.

Uma equipa pode sair das boxes à frente por não ter trocado os pneus, apenas para perder essa vantagem mais tarde, quando o adversário começar a aproximar-se com borracha mais fresca.

Trocas de Pilotos: Mais Uma Peça da Estratégia

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© Peugeot

Ao contrário da F1, onde um único piloto completa a corrida toda, os carros do WEC são partilhados por vários pilotos. As equipas têm, por isso, de gerir não só o desempenho do carro, mas também quem está ao volante e durante quanto tempo.

Na categoria LMGT3, que combina pilotos profissionais e amadores, os tempos mínimos de condução são particularmente importantes. Numa corrida padrão de seis horas, os pilotos classificados como Bronze e Prata têm um requisito mínimo de tempo ao volante de uma hora e 45 minutos, sujeito à regulamentação aplicável.

Isto significa que as equipas não podem simplesmente deixar o piloto profissional mais rápido no carro durante a maior parte da corrida. Têm de planear quando cada piloto vai entrar, equilibrando as regras com a fadiga, as condições da pista e a posição na corrida.

Por vezes, um piloto completa dois ou três stints de combustível antes de passar o volante a um colega de equipa. Outras vezes, uma equipa antecipa a troca para aproveitar uma neutralização ou para evitar colocar um piloto menos experiente em condições particularmente difíceis.

Em Le Mans, o desafio torna-se ainda maior. As equipas têm de ter em conta a condução noturna, a variação de temperatura e a fadiga dos pilotos, respeitando ao mesmo tempo limites máximos de tempo de condução muito rigorosos.

É mais uma razão pela qual a estratégia de boxes nas corridas de resistência pode ser tão complicada. O piloto que conduz o carro em cada momento pode ser tão importante como os pneus que lhe estão montados.

Como os Safety Cars Podem Virar uma Corrida do Avesso

Uma das maiores oportunidades para ganhar posições surge quando a corrida é neutralizada.

Em condições normais de corrida, entrar nas boxes custa um tempo considerável em comparação com os carros que circulam a velocidade de competição. Mas durante um Full Course Yellow ou um Virtual Safety Car, os concorrentes em pista seguem muito mais devagar.

Isso pode reduzir o tempo relativo perdido numa paragem, dando potencialmente a uma equipa uma vantagem substancial sobre os rivais que pararam em condições de bandeira verde.

Claro que não é assim tão simples. O acesso à pit lane e os trabalhos permitidos podem ser restringidos durante certos procedimentos de neutralização, sobretudo sob Safety Car. As equipas têm, por isso, de reagir rapidamente, garantindo ao mesmo tempo o cumprimento das regras.

Há também um elemento de sorte. Uma equipa pode estar perfeitamente posicionada para entrar nas boxes no momento exato em que é chamada a neutralização, enquanto outra pode ter parado instantes antes e perdido um tempo precioso.

Ao longo de seis horas, estes momentos podem reordenar completamente a corrida. Em 24 horas, a sua influência pode ser ainda maior.

A Resistência Não é Só Ser Rápido

Talvez a maior diferença entre a F1 e o WEC esteja na forma como as equipas encaram o quadro geral.

Uma equipa de Fórmula 1 pode estar a tentar ganhar uns segundos num Grande Prémio de 60 voltas. No WEC, os estrategas estão constantemente a recalcular os seus planos ao longo de centenas de voltas, tendo em conta o consumo de combustível, as quotas de energia, o desgaste dos pneus, o tráfego, as mudanças do tempo e a disponibilidade dos pilotos.

Uma equipa pode sacrificar deliberadamente a posição em pista no início da corrida para ter melhores hipóteses mais tarde. Pode alargar um stint de combustível, saltar uma troca de pneus ou ajustar a rotação dos pilotos, tudo na esperança de que essas decisões compensem várias horas depois.

É isso que torna as corridas de resistência tão fascinantes. Nem sempre vence o carro mais rápido numa única volta. Por vezes, vence a equipa que toma as decisões mais inteligentes no momento que mais importa.

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